A secagem mecânica do café é um dos processos mais desafiadores do pós-colheita, especialmente em sua fase final. O ponto crítico ocorre quando o grão atinge cerca de 15% de umidade e precisa chegar a 11% para garantir segurança no armazenamento.
Na fase inicial, a retirada de água ocorre de forma mais rápida, pois trata-se da água retida fracamente por capilaridade. Esse período pode ser observado nas primeiras horas de secagem do café verde e cereja, quando o teor de água ainda é muito elevado.
Depois desse estágio, a secagem passa a atuar diretamente no endosperma e no interior do grão, onde a velocidade de transporte de água para a superfície se torna o fator limitante. Nessa etapa, a taxa de secagem precisa ser acompanhada de perto.
Como explica o professor Flávio Meira Borém em seu livro Pós-Colheita do Café (UFLA, 2008, p. 207):
“O período de secagem a taxa constante é muito curto ou inexistente, porque, nas condições operacionais do processo, as resistências às transferências de água encontram-se essencialmente no seu interior, tornando a taxa de evaporação superficial acentuadamente superior à taxa de reposição de água do interior para a superfície do produto.”
A partir da chamada “meia-seca”, a taxa interna de transporte de água torna-se menor que a taxa de evaporação. Consequentemente, a temperatura do grão aumenta, aproximando-se da temperatura do ar de secagem — o que representa um alto risco para a preservação da qualidade.
É comum, nesse ponto, que a temperatura do ar aquecido se iguale à da massa de grãos. Esse fenômeno, já descrito pelo professor Borém, torna o controle da temperatura um aspecto sensível: todos os esforços feitos pelo produtor até ali podem ser comprometidos em poucas horas.
E, muitas vezes, esses esforços são irrecuperáveis dentro do mesmo ano-safra. Afinal, o cafeicultor já investiu em tratos culturais, infraestrutura, mão de obra, manejo e manutenção da lavoura, lidando diariamente com variáveis fora de seu controle, como clima, especulação de mercado e oscilação de preços na bolsa. Assim, a secagem pode ser um verdadeiro ponto de inflexão: contribuir para o sucesso ou acelerar prejuízos.
Nos últimos meses, atravessamos um momento de preços historicamente elevados — em agosto de 2025, a saca do tipo 6 ultrapassou R$ 2.000,00, algo não visto desde 1977. Em cenários como esse, muitos produtores podem deixar de priorizar a qualidade, já que o retorno financeiro vem do volume, não do diferencial do café especial.
Entretanto, quando os preços retornarem a patamares mais baixos, a qualidade voltará a ser decisiva. Produzir cafés especiais não só garante margens maiores na comercialização, mas também torna o processo mais eficiente: redução de 67% no consumo de energia, tempo de secagem e uso de lenha/palha, em média.
Portanto, a busca por eficiência e inovação na secagem deve ser constante. Mais do que preservar a qualidade, é um diferencial competitivo para garantir sustentabilidade e protagonismo no agronegócio do café.
Todo o conteúdo deste artigo foi desenvolvido e escrito por Rodrigo Mira, com base em sua expertise e experiência de mais de uma década no desenvolvimento de tecnologias para o agronegócio do café.
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